Equitação com Fins Terapêuticos

A Equitação com Fins Terapêuticos é um programa complementar à intervenção desenvolvida nos atendimentos regulares, que alia os conceitos base da Equitação clássica com os fundamentos teóricos da intervenção, cujos contributos positivos se refletem a nível neuromotor, cognitivo e psicossocial. Apesar de ser limitada aos quadros clínicos que a isso o permitam, esta intervenção poderá ser uma importante mais-valia para todos os que dela beneficiem. Pese embora as suas versões iniciais tenham conhecido início em data anterior, foi em 2001, através do Projeto Incluir que a Equitação com Fins Terapêuticos na APCB conheceu o seu grande crescimento até aos dias de hoje.

As sessões de Equitação com Fins Terapêuticos decorrem no Regimento de Cavalaria n,º6 (Braga)

Na APCB, a Equitação com Fins Terapêuticos é realizada por profissionais especializados, que integram as equipas técnicas, com o apoio de um Auxiliar de Equitação Terapêutica. É de reconhecimento internacional e encontra-se regulamentada pela Federação Internacional de Cavalos para Terapia e Educação (HETI) e pela Federação Internacional para Cavaleiros com Incapacidade (FRDI). Os benefícios da intervenção com cavalos na PC estão documentados através de vários estudos (American Hippotherapy Association, 2012; Wickert, 1999; Andrada, 1997, 2003).

Porquê o cavalo? 
É tido que o andar do homem é 95% semelhante ao andar do cavalo, que através de um movimento em três planos (vertical, frontal e sagital) proporciona input físico e sensorial que é variável, rítmico e repetitivo. O andamento a passo produz cerca de 60 a 75 movimentos tridimensionais por minuto, proporcionando ao sistema nervoso central uma grande fonte de estímulos sensoriais. O dorso proporciona um correto posicionamento sentado, sendo que, no global, o contacto com o cavalo e todo o ambiente circundante é facilitador da resposta do sistema nervoso central.
No que concerne aos tipos de andamento, destacam-se o passo (mais lento, cadeado, simétrico, sem tempo de suspensão), o trote e o galope (andamentos saltados, mais rápidos, com tempo de suspensão).

O que engloba a Equitação com Fins Terapêuticos?
O termo Equitação com Fins Terapêuticos é adotado pela APCB no sentido de abarcar três modalidades de intervenção terapêutica com o cavalo: a hipoterapia, a equitação terapêutica e a equitação adaptada.
  • Hipoterapia: nesta modalidade o sujeito é passivo na condução do cavalo, sendo que o objetivo não consiste em aprender a montar, mas sim aproveitar os estímulos que o cavalo proporciona. O cavalo emerge como um agente sensório-percetivo e cinesioterapêutico. A intervenção utiliza o backriding como técnica, isto é, o terapeuta monta o cavalo em simultâneo com o cliente, apoiando o seu posicionamento durante o andamento;
  • Equitação Terapêutica: comparativamente com a hipoterapia, na equitação terapêutica o cliente pode ser mais ativo na condução do cavalo. Para além de manter as suas funções sensório-percetivas e cinesioterapêuticas, acresce-se com maior relevo o seu papel motivador, relacional e educativo. Neste modalidade é possível utilizar diversos tipos de equipamentos e materiais que enriquecem a intervenção;
  • Equitação Adaptada: nesta modalidade o cliente é ativo na condução do cavalo, sendo o principal objetivo da intervenção a integração social, fomentada pelo aumento de participação do cliente. A equitação adaptada permite potenciar as habilidades equestres do cavaleiro, sendo possível utilizar equipamento adaptado para a melhoria do desempenho na atividade.
A escolha do cavalo
Nem todos os cavalos têm competências que permitam realizar Equitação com Fins Terapêuticos, dadas as especificidades das modalidade envolvidas. O cavalo deverá ser calmo, meigo e confiante, e apresentar um comportamento constante. Habitualmente são cavalos com idade superior a 10 anos, sendo a altura ideal até 1,5 metros e com pouca largura de dorso, sem alterações estruturais. Tais características permitirão um andamento confortável, simétrico e calmo. Deve também ser um cavalo não reativo a material e equipamento.

Todos os clientes que integram o programa de Equitação com Fins Terapêuticos são avaliados no seu desenvolvimento

Principais benefícios terapêuticos
Para além dos aspetos já referidos, a Equitação com Fins Terapêuticos aporta toda uma diversidade de benefícios para a pessoa com Paralisia Cerebral e situações neurológicas afins, nomeadamente, a melhoria do controlo postural, o alongamento muscular, a dissociação e qualidade dos movimentos, a modulação do tónus, o padrão de marcha, a resistência muscular, estabilidade articular, controlo de reações associadas, melhoria nas funções sensoriais, aumento da motivação, fatores psicomotores, melhoria da comunicação, da atenção, da memória, da participação e outros.

Destinatários da Equitação com Fins Terapêuticos
Pese embora os seus inúmeros benefícios, a Equitação com Fins Terapêuticos não é indicada para todos os quadros clínicos. Com efeito, existem situações para as quais a Equitação com Fins Terapêuticos é contra-indicada, a saber:
  • Lesões graves da coluna vertebral;
  • Luxações da anca;
  • Instabilidade atlanto-occipital;
  • Diminuição da sensibilidade;
  • Presença de feridas e úlceras;
  • Cardiopatia grave;
  • Utilização de próteses internas;
  • Osteoporose;
  • Gessos;
  • Alergias;
  • Períodos de forte crescimento;
  • Fase evolutiva de escoliose;
  • Edemas;
  • Tendência para escaras;
  • Epilepsia não controlada;
  • Ansiedade exagerada;
  • Algumas doenças mentais;
  • Outras.
Por outro lado, a Equitação com Fins Terapêuticos poderá ser uma grande mais-valia para os seguintes quadros, para os quais se encontra indicada:
  • Paralisia Cerebral;
  • Acidentes Vasculares Encefálicos;
  • Traumas Crâneo-Encefálicos;
  • Disfunções integração sensorial
  • Perturbações Pervasivasdo Desenvolvimento;
  • Síndroma de Down;
  • Dependência de químicos;
  • Stress e depressões;
  • Problemas ortopédicos;
  • Doença de parkinson;
  • Amputações;
  • Alterações visuais;
  • Dificuldades de Aprendizagem;
  • Perturbações do comportamento;
  • Perturbações da comunicação;
  • Perturbações da alimentação;
  • Deficiência Mental;
  • Algumas doenças mentais;
  • Outras.
Características das sessões
Habitualmente, numa sessão de Equitação com Fins Terapêuticos a equipa presente é constituída pelos seguintes elementos: o cavalo, o cliente, o técnico (que lidera a sessão), o guia e o acompanhante. As instalações podem variar, podendo ser realizada uma sessão em picadeiro fechado, em picadeiro semi-aberto ou em campo aberto. Ao nível dos equipamentos utilizados destacam-se as escadas, os acessórios de transferência e a rampas que permitem ao cliente montar o cavalo, consoante as suas características de mobilidade.

Exemplos de tipos de escadas utilizadas no acesso ao cavalo

No que concerne ao cavaleiro, o equipamento utilizado é o toque, as calças, as botas, roupa confortável (i.e. sem vincos, utilizando-se normalmente calças elásticas), sendo que blusões grandes e cordões devem ser evitados. O equipamento do cavalo poderá ser adaptado consoante os objetivos de cada sessão, sendo possível adotar a sela portuguesa, a sela inglesa, uma sela adaptada ou uma manta, cobertor e almofada. O cavalo devem também estar equipado com silhão e poderá ter as rédeas adaptadas, caso o cliente necessite pelas suas características. O material de intervenção habitualmente utilizado são bolas, arcos, cones, molas, imagens e brinquedos.

Exemplos de materiais de intervenção
O início de uma sessão não começa somente em cima do cavalo. Existe todo um trabalho realizado imediatamente após o momento em que o cliente chega ao picadeiro. A adaptação é uma fase antecipatória do montar que ajuda a antecipar e a regular o comportamento. O tocar, cumprimentar, estabelecer relação com o cavalo é uma experiência sensorial e de comunicação riquíssima para o decorrer da sessão.

Esquema sequencial habitual de uma sessão de Equitação com Fins Terapêuticos

Fontes
Textos: A informação técnica exposta resulta da compilação de informação, tendo por base a documentação elaborada pelos técnicos da APCB afetos ao programa de Equitação com Fins Terapêuticos.
Imagens: A APCB agradece a todos os clientes, famílias e colaboradores por cederem gentilmente a sua imagem na divulgação do trabalho desenvolvido pela organização.
Referências bibliográficas
American Hippotherapy Association. (2012). Disponível em http://www.americanhippotherapyassociation.org/. Acedido em Outubro de 2012.
Andrada, M. G. (1997). Paralisia Cerebral – O estado da arte no diagnóstico e intervenção. Medicina Física e de Reabilitação, 2: 15-20.
Andrada, M. G. (2003). Paralisia Cerebral – etiopatogenia/diagnóstico/intervenção. Arquivos de Fisiatria. 10: 5-16.
Wickert, H. (1999). O cavalo como instrumento cinesioterapêutico. I Congresso Brasileiro de Equoterapia – Coletânea de trabalhos. Associação Nacional de Equoterapia. Brasília, p.101, Nov. 1999.